Friday, November 22, 2002

NO FUNDO DO MAR

Podem até dizer que eu vivo no passado, mas quem pode explicar o que se sente ao se passar quase todo dia em frente à casa onde se viveu tantos momentos preciosos de sua infância e ver que ela é hoje algo completamente diferente? Ao ver aquele quintal, que um dia pareceu que estaria ali para sempre, transformando-se em algo novo, sem a menor semelhança com o anterior?

Não pude deixar de sentir certo rancor pelos pedreiros que ali faziam seu trabalho com a maior naturalidade. Como podiam demonstrar tamanha indiferença pelo lugar que guardava momentos tão queridos meus!!! Como podiam??
"VOCÊS QUEREM FAZER O FAVOR DE PARAR COM ISSO!!!" Era o grito que surgia no coração e morria mudo nos lábios cerrados. Diante da magntude da vida em seu curso, que legitimidade teriam meus sentimentos? Eu seguia em frente, no mesmo passo calmo com que vinha, em direção a minha casa, sufocando o impulso de ir até lá e pular e gritar.

Ao ver, a cada novo dia, aquele lugar ser demolido aos pouquinhos, sentia como se algo muito precioso estivesse sendo arrancado de dentro de mim. Num dia eu ainda podia indentificar pedaços do piso, que imediatamente reportavam-me a um mundo de momentos. No dia seguinte, ao olhar a terra nua, senti que aquele era o primeiro dia de um processo que me faria esquecer completamente como era aquele lugar, e tudo seria muito mais difícil de lembrar.

Passar por ali cada dia e não mais reconhecer o pequenino quintal onde brinquei com meu irmão e meus primos, colori livrinhos e tirei foto vestida de roupa nova... não mais vislumbrar o quartinho onde me escondia, a janela de onde eu achava que sairia um monstro assustador no meio da noite.

Não mais reconheço, porque tudo veio abaixo; uma nova construção ali se ergue. Novas memórias serão ali vivenciadas, memórias que não as minhas.

O tempo é um grande inimigo dos momentos. Sejam eles bons ou ruins, o tempo encarrega-se de afogá-los no fundo de um mar invisível chamado passado, como ruínas de um navio. Lembram-me o Titanic, um dia tão imponente e majestoso, hoje dorme esquecido e silencioso lá no fundo do mar. Assim são os momentos. Quem olha a superfície do presente, calma e tranquila, jamais imagina que sob ele estão guardados mundos que existiram antes e foram tão fortes e devastadores. Alguns são lembrados, outros esquecidos, mas todos, igualmente, deterioram-se sempre mais.

Não sei porque, mas minha memória sempre me traz muitas lembranças de quase tudo que já vivi. É como um mergulhador que gosta de sempre voltar às ruínas por algum prazer mórbido. Por algum motivo o tempo que passou parece sempre melhor e mais bonito. Por algum motivo as memórias do passado parecem cercadas de uma aura que as torna especialmente belas. Por algum motivo, que não sei explicar, como a sereia ao pescador, o passado me atrai.
“Ah, que saudades que tenho
Da aurora da minha vida
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais
...
...
Oh, dias de minha infância
Oh, meu céu de primavera
Que doce a vida não era
Naquela risonha manhã...”(Casemiro de Abreu)
Léa Virginia on November 22, Feira de Santana.